17 de março de 2011 às 11:30
A Natal dos sonhos Depois da Copa na pena de Woden Madruga
Publicado em Artigos
O jornalista Woden Madruga
é daqueles inigualáveis quando coloca sua inspiração letrada no papel,
reunida em crônicas. Primorosas. Primazes. E tantos outros adjetivos que
cabem no alto da sua sapiência.
Na sua coluna desta quinta-feira (17), nesta Tribuna do Norte,
ele traz mais um texto digno de anais. Leitura daquelas imperdíveis.
Neste momento em que o Estado está falido, com saúde, saneamento,
educação, segurança…beirando o caos e não se vê solução nem a longo
prazo por falta de dinheiro, vem a notícia de que o governo investirá R$ 1,288 bilhão
para a construção do estádio que será palco de dois jogos na Copa do
Mundo de 2014. Justifica-se no tempo: ah, mas é num prazo de 30 anos. E
daqui a 30 anos não existem perspectivas para a saúde, nem para a
educação, nem para a segurança…Pois.
Secretário da Copa, Demétrio Torres chegou à pachorra de dizer que daqui a 10 anos os R$ 9 milhões
que o governo depositará mensalmente para a construtora será uma,
digamos assim, mixaria. Nesse tempo, minha gente, daria para construir
tantos e tantos leitos de UTI. A carência hoje no Estado supera os mil
leitos. Para se ter idéia, a construção do Pronto-Socorro Clóvis Sarinho
demandou cerca de R$ 5 milhões, mais coisa de R$ 5 mi para equipar…Isso só para início de explicação.
Mas não precisa dizer mais nada. O texto de WM já diz mais que tudo. Como uma boa filosofia fernandiana, vai de heterônimo. Deleitem-se:
A Disney da borboleta
Mestre Florentino Vereda, que passou o
carnaval ao redor da Chapada do Araripe, entre o cariri cearense e as
ribeiras de Exu de Luiz Gonzaga, do lado pernambucano (me parece que se
ensaia aí um futuro projeto de pesquisa sobre a caatinga), antes de
retornar ao Jalapão deu uma esticada por Natal e arredores. Pelo que
me falou, em rápido telefonema, foi apenas uma passagem sentimental
pela Mata da Estrela, um guiné na cabidela no restaurante de Lula e
rever a cidade antes que ela acabe. Na conversa pediu notícias de Alex
Nascimento e de Nei Leandro e avisou que estava mandando qualquer
coisa para a minha bacia das almas. Ontem, me chegou o seu imeio. Vai
por inteiro:
- Ainda não me havia dado conta da
importância da Copa de 2014 para os des(a)tinos do Brasil,
particularmente desta cidade presépio. Eis que a alcaidessa Micarla de
Souza declara solenemente que a história de Natal passará a ser contada
depois da Copa. AC/DC. Se antes era o caos – para o qual ela,
humildemente, deu sua parcela de contribuição – dali por diante
viveremos no Jardim do Éden. Nada será como antes, repetindo Milton
Nascimento.
- O Hospital Walfredo Gurgel, por falta
de pacientes, será demolido. As policias civil e militar, como no Japão
(antes do terremoto) – dedicar-se-ão a ensinar etiqueta e jardinagem
aos felizes moradores desta urbe natalina. Crack, só nos gramados.
Buracos, nem pensar. Nem mesmo o metrô, que trafegará em trilhos
elevados acima das vias públicas, onde de descortinam as mais belas
paisagens, desde a Fortaleza dos Reis Magos até o pórtico da Cidade
(projeto de Moacir Gomes), ali pertinho da cratera que, a cada dois
anos, se abre ao lado da antiga Ponte Velha. Nas escolas públicas os
professores serão saudados, a cada manhã, com cânticos de louvor e
maçãs reluzentes, trazidas pelos amáveis e felizes alunos, como nos
bons filmes de Pat Boone e Dóris Day, nas sessões vespertinas de
domingo no Rio Grande.
- E a história recomeçará em Junho de
2014, quando soar o apito do árbitro tailandês iniciando a sensacional
partida entre Botswana e Burkina Faso, na Arena das Dunas, recém
concluída e inaugurada. Bom, faltam ainda os banheiros, mas isto é o de
menos. A bola vai rolar. Aliás, já está rolando: redonda, gorda. Muita
grana; quer dizer, muita grama. Quem se mete neste jogo, cara, tem que
ser bom de bola. Como diz o hino do ABC:
“(…) é bola praqui
É bola pra lá…”
- Não é preciso ser mineiro para saber
que os verbos mudam de tempo. O que não se faria em oito anos, tem que
ser feito em três. E Jesus, quem diria, perdeu o cartaz justo na cidade
que, pelo nome, homenageia o seu nascimento, há dois milênios. Os
apóstolos, que já não são doze, passam de vinte e reúnem-se em volta da
nossa nova líder espiritual que, sabiamente, não conclamou os justos a
atirarem a primeira pedra. Do jeito que estão as nossas ruas é só
abaixar e apanhar o paralelepípedo, dos muitos (milhares) que estão
soltos. Não creio que haja algum Judas, mas se houver, não será por
trinta moedas que trairá a condutora de rebanhos. Com a inflação que se
avizinha, será necessário um bom depósito de euros em algum paraíso
fiscal.
- De quebra, apagada a história pré-copa
2014, muitas polêmicas inócuas deixarão de existir. Não se falará mais
da castanhola de Cascudo, do baobá de Exupéry, dos planos de
Polidrelli e Palumbo. É só futebol, carnatal, vaquejada, forró e
cachaça.
- Sei não, mas se a história se repete,
fico pensando em como o Brasil mudou com a Copa de 50. Depois do gol de
Ghiggia que adiou o sonho brasileiro, o país mergulhou numa crise
político-institucional cujos lances mais dramáticos foram o suicídio de
Getúlio, a renúncia de Jânio, a deposição de Jango e os governos
militares que nos deixaram nas mãos de Sarney, Collor et caterva.
Portanto, é fundamental que não percamos esta segunda copa dentro de
casa, pois não poderemos suportar tantas desgraças novamente.
- E, como disse a alcaidessa: Bola pra frente!!!
Copiado do Blog da Abelinha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário