sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Natal dos sonhos Depois da Copa na pena de Woden Madruga





17 de março de 2011 às 11:30

A Natal dos sonhos Depois da Copa na pena de Woden Madruga



Publicado em Artigos
O jornalista Woden Madruga é daqueles inigualáveis quando coloca sua inspiração letrada no papel, reunida em crônicas. Primorosas. Primazes. E tantos outros adjetivos que cabem no alto da sua sapiência.
Na sua coluna desta quinta-feira (17), nesta Tribuna do Norte, ele traz mais um texto digno de anais. Leitura daquelas imperdíveis. Neste momento em que o Estado está falido, com saúde, saneamento, educação, segurança…beirando o caos e não se vê solução nem a longo prazo por falta de dinheiro, vem a notícia de que o governo investirá R$ 1,288 bilhão para a construção do estádio que será palco de dois jogos na Copa do Mundo de 2014. Justifica-se no tempo: ah, mas é num prazo de 30 anos. E daqui a 30 anos não existem perspectivas para a saúde, nem para a educação, nem para a segurança…Pois.
Secretário da Copa, Demétrio Torres chegou à pachorra de dizer que daqui a 10 anos os R$ 9 milhões que o governo depositará mensalmente para a construtora será uma, digamos assim, mixaria. Nesse tempo, minha gente, daria para construir tantos e tantos leitos de UTI. A carência hoje no Estado supera os mil leitos. Para se ter idéia, a construção do Pronto-Socorro Clóvis Sarinho demandou cerca de R$ 5 milhões, mais coisa de R$ 5 mi para equipar…Isso só para início de explicação.
Mas não precisa dizer mais nada. O texto de WM já diz mais que tudo. Como uma boa filosofia fernandiana, vai de heterônimo.  Deleitem-se:

A Disney da borboleta

Mestre Florentino Vereda, que passou o carnaval ao redor da Chapada do Araripe, entre o cariri cearense e as ribeiras de Exu de Luiz Gonzaga, do lado pernambucano (me parece que se ensaia aí um futuro projeto de pesquisa sobre a caatinga), antes de retornar ao Jalapão deu uma  esticada por Natal e  arredores. Pelo que me falou, em rápido telefonema, foi apenas uma passagem sentimental pela Mata da Estrela, um guiné na cabidela no restaurante de Lula e rever a cidade antes que ela  acabe. Na conversa pediu notícias de Alex Nascimento e de Nei Leandro e avisou que estava mandando qualquer coisa para a minha bacia das almas. Ontem, me chegou o seu imeio. Vai por inteiro:
- Ainda não me havia dado conta da importância da Copa de 2014 para os des(a)tinos do Brasil, particularmente desta cidade presépio. Eis que a alcaidessa Micarla de Souza declara solenemente que a história de Natal passará a ser contada depois da Copa. AC/DC. Se antes era o caos – para o qual ela, humildemente, deu sua parcela de contribuição – dali por diante viveremos no Jardim do Éden. Nada será como antes, repetindo Milton Nascimento.
- O Hospital Walfredo Gurgel, por falta de pacientes, será demolido. As policias civil e militar, como no Japão (antes do terremoto) – dedicar-se-ão a ensinar etiqueta e jardinagem aos felizes moradores desta urbe natalina. Crack, só nos gramados. Buracos, nem pensar. Nem mesmo o metrô, que trafegará em trilhos elevados acima das vias públicas, onde de descortinam as mais belas paisagens, desde a Fortaleza dos Reis Magos até o pórtico da Cidade (projeto de Moacir Gomes), ali pertinho da cratera que, a cada dois anos, se abre ao lado da antiga Ponte Velha. Nas escolas públicas os professores serão saudados, a cada manhã, com cânticos de louvor e maçãs reluzentes, trazidas pelos amáveis e felizes alunos, como nos bons filmes de Pat Boone e Dóris Day, nas sessões vespertinas de domingo no Rio Grande.
- E a história recomeçará em Junho de 2014, quando soar o apito do árbitro tailandês iniciando a sensacional partida entre Botswana e Burkina Faso, na Arena das Dunas, recém concluída e inaugurada. Bom, faltam ainda os banheiros, mas isto é o de menos. A bola vai rolar. Aliás, já está rolando: redonda, gorda. Muita grana; quer dizer, muita grama. Quem se mete neste jogo, cara, tem que ser bom de bola. Como diz o hino do ABC:
“(…) é bola praqui
É bola pra lá…”
- Não é preciso ser mineiro para saber que os verbos mudam de tempo. O que não se faria em oito anos, tem que ser feito em três. E Jesus, quem diria, perdeu o cartaz justo na cidade que, pelo nome, homenageia o seu nascimento, há dois milênios. Os apóstolos, que já não são doze, passam de vinte e reúnem-se em volta da nossa nova líder espiritual que, sabiamente, não conclamou os justos a atirarem a primeira pedra. Do jeito que estão as nossas ruas é só abaixar e apanhar o paralelepípedo, dos muitos (milhares) que estão soltos. Não creio que haja algum Judas, mas se houver, não será por trinta moedas que trairá a condutora de rebanhos. Com a inflação que se avizinha, será necessário um  bom depósito de euros em algum paraíso fiscal.
- De quebra, apagada a história pré-copa 2014, muitas polêmicas inócuas deixarão de existir. Não se falará mais da castanhola de Cascudo, do baobá de Exupéry, dos planos de Polidrelli e Palumbo. É só futebol, carnatal,  vaquejada, forró e cachaça.
- Sei não, mas se a história se repete, fico pensando em como o Brasil mudou com a Copa de 50. Depois do gol de Ghiggia que adiou o sonho brasileiro, o país mergulhou numa crise político-institucional cujos lances mais dramáticos foram o suicídio de Getúlio, a renúncia de Jânio, a deposição de Jango e os governos militares que nos deixaram nas mãos de Sarney, Collor et caterva. Portanto, é fundamental que não percamos esta segunda copa dentro de casa, pois não poderemos suportar tantas desgraças novamente.
- E, como disse a alcaidessa: Bola pra frente!!!

Copiado do Blog da Abelinha.

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