SOBRE A PERICULOSIDADE DOS ORNITÓLOGOS *
Ano passado, comentei o perigo que os ornitólogos representam para a
economia de um país. A idéia que temos destes senhores é a de pacatos
cidadãos que adoram observar essas maravilhas da natureza, os
passarinhos. Até pode ser. Mas sempre é bom desconfiar quando
ornitólogos apresentam um pássaro na televisão. Normalmente, há grossa
sacanagem de ONGs e ambientalistas atrás disto.
Nos dias em que vivi no Paraná, durante semanas foi vedete dos
noticiários televisivos um pequeno pássaro, uma espécie de pardal, que
estaria ameaçado de extinção. Chamava-se curiango-do-banhado e habitava
nos arredores de Curitiba. Durante longos minutos, o bichinho era
exibido em seus ângulos mais simpáticos, sempre com a mensagem: corre
perigo de extinção. Ano seguinte, foi a vez de uma nova espécie de
tapaculo, da família Rhinocryptidae, batizada com o nome popular de
macuquinho-da-várzea. Também vivia nos arredores de Curitiba. Algumas
semanas mais tarde se soube ao que vinham o curiango-do-banhado e o
macuquinho-da-várzea. Para preservá-los, era preciso preservar seu
habitat natural. E para preservar seu habitat natural, as tais de ONGs
fizeram uma ferrenha campanha para impedir a construção de uma barragem
que abasteceria a capital paranaense. Me consta que o projeto de
barragem morreu na casca.
Há alguns anos, vi uma reportagem no 60 Minutes sobre uma região
da Índia que abrigava quarenta milhões de habitantes. O programa
começava mostrando mulheres e crianças carregando em baldes, para
próprio consumo, uma água preta e lamacenta. Outras juntavam esterco de
vaca, usado como combustível. Havia um projeto de uma represa para
abastecer de energia elétrica e água potável a região toda. Uma ONG
vetou o projeto junto ao Banco Mundial, com a argumentação de que a
represa ameaçava uma espécie qualquer de tigre. A represa gorou e
quarenta milhões de pessoas continuaram a beber água podre e cozinhar
com esterco de vaca.
A reportagem entrevistava em Nova York, em um elegante apartamento, a
porta-voz da ONG que conseguiu sepultar a represa. Não sei se a moça
percebeu a ironia, mas o repórter a filma enchendo um copo de límpida
água de torneira. O repórter quer saber porque privar milhões de pessoas
de água limpa. A moça dizia mais ou menos o seguinte (cito de memória):
não queremos que aquelas populações adquiram os hábitos de consumo do
Ocidente. É como se dissesse: esses hábitos do Ocidente são privilégios
de ocidentais. Vocês aí, continuem catando esterco de vaca.
Claro que a moça jamais viveu naquelas condições. Eu, água preta à
parte, vivi. Em meus dias de guri, esterco de vaca era um dos
combustíveis que usávamos. Outro eram gravetos de chirca, um arbusto
daninho que invade os campos. E também madeira de árvores,
particularmente de eucaliptos. Mas hoje o Ibama proíbe derrubar qualquer
árvore. Quanto à água, tinha-se água limpa. O problema é que tinha de
ser buscada, operação que tomava uma boa hora de cada dia.
Primeiro era preciso encilhar um cavalo, atrelar uma rasta com uma
barrica, levar a barrica até a cacimba - a mais de quilômetro de
distância -, enchê-la pacientemente balde a balde, usando um pano
qualquer para coar a água. A fauna macroscópica ficava se contorcendo
sobre o pano. Quanto à microscópica ninguém ligava e jamais vi morrer
alguém por beber daquela água. A água gelada daquela cacimba até hoje me
dá saudades. Quando migrei para a cidade, vi a água correndo da
torneira como se estivesse diante de um milagre. Todas as casas de Roma
tinham água encanada antes de Cristo. No Brasil, até hoje, milhões de
pessoas não dispõem deste conforto.
Mais de trezentos projetos de barragens já foram engavetados no mundo,
especialmente na África, Ásia e América Latina, por obra de ONGs. Estas
organizações estão cometendo crimes contra a humanidade, ao condenar
milhões de pessoas a viver longe da água potável e energia elétrica.
Seus militantes são sempre oriundos de países desenvolvidos, todos
pontilhados de represas. Sua ação sempre incide sobre países do Terceiro
Mundo, que precisam de energia para abandonar esta condição. É preciso
olhar com cautela para os defensores aguerridos da fauna. Tigres ou
passarinhos, bichinhos comoventes tipo o mico-leão-dourado, constituem
uma ameaça ao desenvolvimento de países pobres quando manipulados por
ongueiros.
Semana passada, dois simpáticos passarinhos ameaçados de extinção ilustraram uma reportagem na Folha de São Paulo,
o papa-formigas-de-topete-branco e o rapazinho-carijó. Segundo recente
estudo feito por cientistas brasileiros - e americanos, como não poderia
deixar de ser - as unidades de conservação pequenas têm potencial
limitado na conservação da biodiversidade na Amazônia quando se trata de
espécies de pássaros. A conclusão é de um novo estudo de cientistas do
Brasil e dos Estados Unidos, a partir de levantamentos feitos desde 1979
numa área desmatada perto de Manaus. Os cientistas tentam entender qual
é fator mais crucial para a sobrevivência de espécies em um determinado
fragmento de mata que tenha restado numa região desmatada. É mais
importante que esse fragmento seja grande ou é mais importante que ele
não esteja muito isolado de outros trechos de mata?
Seja qual for a conclusão, é óbvio que se oporá a qualquer iniciativa
para desenvolver a região. 'Fragmentos de cem hectares perdem a metade
do número de espécies de ave em cerca de 15 anos", diz o pesquisador,
que alerta para um problema: "Para diminuir dez vezes a velocidade de
perda, é preciso aumentar cem vezes a área". Confesso que não sei o que
está sendo projetado para a região. De qualquer forma, desde quando
passarinho é prioritário ante um projeto de agricultura ou pecuária? Por
outro lado, pássaros voam. Se um território tornou-se hostil, eles
buscam outro. Pássaros migram. Não é preciso ser ornitólogo para saber
disto. Quando migram, não migram a pé. Asas vão longe e a Amazônia é
vasta.
Isto pode ser observado no Sul do país. Afugentadas pelos agrotóxicos,
muitas aves do campo estão buscando as cidades. O quero-quero, ave
campestre que jamais pousou em árvores, já aprendeu até mesmo a pousar
em cumeeiras de casas. Necessidade obriga. Mais algumas décadas e talvez
estejam pousando em fios de telefone. Se é que até lá existirão fios de
telefone.
Nos anos 70, uma foto feita por um fotógrafo do Estadão ganhou prêmios
internacionais, a foto de um ninho de pomba. Isolada na urbe, sem a
matéria-prima usual para a construção de seu ninho - folhas e gravetos -
a pomba inovou: fez um ninho de clips. Man tager vad man haver, dizia
uma profunda escritora sueca, Kajsa Varg. Em bom português: a gente pega
o que a gente tem. (Em tempo: Kajsa Varg é autora de livros de
culinária). Os pássaros se adaptam. Quem não se adapta são os
ambientalistas, aferrados a seus dogmas ecológicos.
Esses estudos que surgem de tempos em tempos nos jornais, visando criar
santuários para pássaros, não passam de pretextos de ecochatos para
impedir projetos agrários, usinas, estradas. Num país que não consegue
sequer dar segurança a seus cidadãos, ainda há quem queira preservar o
bem-estar dos pássaros. Os pássaros-vítimas-do-desenvolvimento - ou
animais - têm de ser simpáticos para comover a opinião pública. Ninguém
se comoveria com a preservação dos morcegos. Que nojo! Muito menos de
aranhas, escorpiões ou lacraias. Já o mico-leão-dourado é podre de
charme.
Assim, quando você vir ornitólogos passeando pela floresta, de binóculos
em punho, como quem inocentemente observa pássaros, cuidado: algo devem
estar tramando contra a humanidade.
COPIADO DE: http://cristaldo.blogspot.com.br
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