PSICANALISTA É QUALQUER UM
A respeito de crônica recente sobre psicanalistas, me escreve Laís Legg:
“Primeiro, vamos definir o que é um "psicanalista". Qual seu curso de
graduação? Geralmente, qualquer um”.
De fato, Laís, psicanalista pode ser qualquer um. A profissão de
psicanalista não está regulamentada. Nem os psicanalistas querem que
seja regulamentada, pois aí alguma "escola" pode ficar fora. Assim
sendo, não se exige nem mesmo curso superior para o exercício do ofício.
Assim sendo, não se exige nem mesmo curso superior para o exercício do
ofício. Na França, para efeitos de imposto de renda, psicanalistas são
equiparados a prostitutas, videntes e cartomantes.
Há uns bons quarenta anos, venho afirmando esta evidência. Me sinto
clamando no deserto. Ainda hoje há quem pense que o exercício da
psicanálise exige curso superior. É claro que se você colocar sua
plaquinha, as guildas vão chiar. Que chiem. A profissão não está
regulamentada.
Muitos embates tive com esta raça de vigaristas. Ainda jovem, fiz um
concurso para secretário de escola. Na hora do exame biométrico, entrei
na fila errada, caí na dos concursados para delegados de polícia. Fui
examinado por um psicanalista. Sentado em uma cadeira solene, do outro
lado da mesa me analisava com olhar percuciente. Eu, numa cadeirinha de
réu. Comecei a rir.
- Por que o senhor está rindo?
- Estou rindo porque o senhor, do alto dessa curul, está me observando nesta humilde cadeirinha.
Não sei se ele entendeu a curul, mas senti que não gostou.
- O senhor está rindo de nervoso.
- Vai ver que é, Dr! O senhor é psicanalista. Eu, provavelmente um neurótico qualquer.
- O senhor tem algo contra a psicanálise? – perguntou-me.
Tinha e muito. Havia lido bastante na época sobre o assunto e fui
debulhando meus argumentos. Ele não disse nada e dispensou-me. Algumas
semanas depois recebi uma comunicação. Devia submeter-me a uma junta
psiquiátrica. Se não aceitava a psicanálise, certamente era um perigoso
meliante.
Compareci ao exame. Não consigo esquecer da cena. Três doutores,
sentados sempre em cadeiras solenes, me olhavam do alto. Eu, numa
cadeirinha de réu. Precisava do emprego, respondi como eles gostavam.
Fiquei sem saber se fui condenado ou não pelos Torquemadas. Antes da
sentença, consegui emprego em jornal e nem me preocupei com o laudo.
Mais adiante, novo confronto. No final dos 70, na Folha da Manhã,
Porto Alegre, escrevi que ser psicanalista dispensava curso
universitário. Mais ainda, dispensava qualquer curso. Qualquer
analfabeto, se quisesse, podia colocar placa de psicanalista em uma sala
e sair clinicando. Na época, em São Paulo, após o curso de cinco anos,
ao preço de dez ou quinze mil cruzeiros por mês, pessoas sem o
pré-requisito do curso de medicina podiam exercer a profissão de
psicanalista. Enquanto 38 alunos faziam o curso, outros cem esperavam na
fila.
A guilda reagiu com fúria. Um psiquiatra, lembro que chamado Ronaldo
Moreira Brum, me acusou nos jornais de nada entender de medicina – como
se psicanálise fosse medicina. Ok! Doutor. De medicina nada entendo. Mas
entendo de Direito. E psicanalista não é profissão regulamentada.
Portanto, qualquer um pode exercê-la. A propósito, tem muito engenheiro e
economista desempregado no Brasil, que puseram plaquinha de
psicanalista em seus escritórios para ganhar seu pão.
Uma psicóloga e jornalista, Ivete Brandalise, resolveu enfiar sua colher
na sopa. Escreveu que devia existir uma lei que regulamentasse a
profissão de psicanalista. Que ela, psicóloga, tinha uma lei que
regulamentava a sua. Ora, a dita lei era um trenzinho da alegria, no
qual embarcaram todos os licenciados em Filosofia. De filósofos, vaga e
suspeita ocupação, viraram psicólogos. Ora, lei tem número e data.
Desafiei a Brandalise, e também o Dr. Ronaldo, a me citar o número e a
data da lei que regulamentava a profissão. Nunca tive resposta.
A cada semana, começava minha crônica: “Enquanto o Dr. Ronaldo não nos
fornece o número e a data da famosa lei que regulamenta a profissão de
psicanalista...” Nunca forneceu. Soube mais tarde que propôs, em uma
reunião da Amrigs (Associação dos Médicos do Rio Grande do Sul), que a
entidade me processasse por calúnia. Ou talvez difamação, já não lembro.
Prudentemente, a Amrigs decidiu que não iria dar atenção a “um
jornalista em busca de sensacionalismo”.
Se bem que, devo confessar, tive notícias de um psicanalista sensato. Em
minhas andanças noturnas, conheci uma mulher esplendorosa. Algumas
semanas depois, sem mais nem menos, ela bateu à porta de meu humilde
tugúrio. Recém-acordado, perplexo e sem acreditar no que via, perguntei
ao que vinha.
- Meu psicanalista me liberou para te visitar.
Entra. E passa meu endereço ao doutor. Que mande mais clientes.
Profissional dos bons tava ali. Ou seja, mesmo no universo da
psicanálise parece existir alguma lucidez. É a chispa da ferradura
quando bate na calçada.
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