BAN KI MOON INAUGURA
FESTIVAL DOS ECOCHATOS
COM SOLENE BOBAGEM
Já atravessei muitas fronteiras e confesso que fronteiras são sempre
desconfortáveis. Interrupção da viagem, burocracia, passaportes, vistos,
troca de moedas, isso sem falar de uma nova língua e novos costumes.
Estes últimos são o de menos, afinal viajamos para conhecer o novo. De
1996 para cá, com o Acordo de Schengen, pelo menos na Europa, tudo se
tornou mais fácil. Esta convenção entre países significou uma política
de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países
signatários.
Em um total de 30 países, incluindo todos os integrantes da União
(exceto Irlanda e Reino Unido), mais três países que não são membros da
UE (Islândia, Noruega e Suíça), tornou-se possível viajar sem apresentar
documentos. Você tem o passaporte carimbado no primeiro que entra e
naquele por onde sai. Desagradável para quem gosta, como eu, de
colecionar vistos, mas mais confortável para quem viaja.
Outro passo para a eliminação de fronteiras foi a introdução do euro
como moeda comum na maioria dos países europeus. Eu estava em Roma, no
1º de janeiro de 2002, quando os magos da economia trouxeram ao
continente euro, incenso e mirra. Era outra fronteira que caía, a da
moeda. No encontro de Maastricht, em 91, o euro soava como distante
quimera. A cada país que você visitava, precisava trocar moeda e refazer
seus cálculos. Hoje, apesar dos eurocéticos, há uma euroforia em todo o
continente. Bancos e correios estiveram constantemente lotados nos
últimos dias de 2002, com filas de cidadãos ansiosos por pôr as mãos em
um pequeno kit da nova divisa. Nem mesmo os gregos, cuja dracma tinha
nada menos que 2.600 anos, choraram o enterro da velha moeda. Na
ocasião, até mesmo os textos de Platão e Aristóteles se tornaram
ligeiramente mais envelhecidos.
Verdade que hoje, com a crise européia, os inimigos do euro estão
fazendo festa. Há quem julgue que a Grécia voltará à dracma, ou pelo
menos sairá da eurozona. Não sai, não. É muito alto o custo de uma troca
de moeda. Sem falar que esta troca abalaria a economia de todos os
países do continente.
Mas falava de fronteiras. Tive conhecimento do que realmente significa
uma fronteira quando estive pela primeira vez em Berlim. Terá sido no
final dos 70. O Muro parecia ter sido erguido para a eternidade e
ninguém sonhava, naqueles anos, que um dia pudesse ser demolido. Berlim
Ocidental era uma ilha de prosperidade em pleno deserto socialista. Você
embarcava em alguma cidade fronteiriça da Alemanha Ocidental e no trem
já sentia o cheiro do socialismo. Trens vagabundos, policiais
carrancudos acompanhados por cães também policiais, um tratamento hostil
dos passageiros, mais ou menos do tipo “o que você veio fazer aqui?”
Ao desembarcar na Berlim Ocidental, a volta ao conforto e bem-estar. A
cidade era rica e privilegiada. Funcionava como uma vitrine do
capitalismo em meio ao inferno socialista. O Senado berlinense
proporcionava uma série de subsídios a quem lá vivia, para manter
habitada a vitrine. Era uma das cidades mais confortáveis e baratas da
Europa. A amiga que me recebia vivia em um belo apartamento de quatro
quartos, cujo aluguel era a metade do que eu pagava em Paris por um
quarto-e-sala.
Berlim era a cidade preferida de aposentados e de jovens que preferiam
não entrar de rijo na competição capitalista. Um pequeno paraíso
incrustado no mundo soviético. A Kurfürstendamm, Kudamm para os íntimos,
com suas lojas e restaurantes suntuosos, fazia um contraste escandaloso
à miséria do outro lado do Muro. Minha amiga levou-me lá, para sentir o
cheiro do socialismo. Não estou falando por metáforas. Socialismo
cheira mal mesmo. Mal atravessei a fronteira, um odor desagradável de
carvão vegetal inundou-me as narinas.
As diferenças começavam já na travessia do Muro. Do lado de cá, ao
entrar no metrô, você punha o tíquete numa máquina eletrônica, que o
devolvia do outro lado. Do lado de lá, você tinha de picotar o tíquete
em uma alavanca enferrujada. Na fronteira, um policial com cara de
buldogue olhava um minuto para sua foto no passaporte e mais outro
minuto para seu rosto.
Foi em Berlim, após atravessar muitas outros países, que tive a noção do
era realmente uma fronteira. Para quem nasceu na fronteira seca de
Upamaruty, entre Uruguai e Brasil, Berlim era um tapa na cara. Quem vive
em Livramento ou Rivera, onde se passa de um país a outro sem dar
satisfação a autoridade alguma, ficaria perplexo ante o Muro.
Fronteiras podem ser fáceis ou extremamente antipáticas. As do antigo
mundo socialista eram abomináveis. Você era visto como um inimigo que
estivesse penetrando penetrar na fortaleza assediada do paraíso. Mas
fáceis ou abomináveis, as fronteiras são necessárias.
Ban Ki Moon, o secretário-geral da ONU – este festival permanente de
discursos inúteis – disse hoje durante a Rio+20 – outro festival de
discursos também inúteis – que apesar de os chefes de estado
representarem seus países, a noção de fronteira é coisa do passado.
“Todos estão interconectados”, declarou.
É espantoso ver como uma autoridade se desloca de New York até o
Woodstock dos ecochatos para proferir semelhante bobagem. Que os países
estão interconectados, isto não se discute. É exatamente por estarem
interconectados que as fronteiras são necessárias. Ou o México se
mudaria para os Estados Unidos e a África para a Europa. O tratado de
Schengen, que surgiu para facilitar a vida dos europeus, está hoje
facilitando a entrada de imigrantes árabes e africanos e já foi
contestado pela França. Há 43 milhões de refugiados no mundo todo, hoje.
Imagine um planeta sem fronteiras. Os países mais ricos seriam
dizimados por uma nuvem de gafanhotos.
A imigração está corroendo a Europa e modificando a cultura americana.
Imigração sem controle não prejudica país pobre, apenas os ricos. Há
algumas décadas, os imigrantes chegavam em um país querendo saber quais
eram seus deveres. Hoje, mal passam a aduana, querem saber de seus
direitos. Quando alguém defende a salutar idéia de um maior rigor nas
fronteiras, logo saltam os defensores da dita “diversidade cultural”
para pichá-lo de nazista. Costumo afirmar que os comunistas, que não
conseguiram destruir a Europa com o discurso da luta de classes, querem
agora destruí-la em nome da diversidade cultural.
Fronteiras não são coisas do passado. Mais do que nunca as fronteiras se
fazem necessárias, para a preservação do que de melhor o Ocidente
produziu.
COPIADO DE: http://cristaldo.blogspot.com.br/
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